Serão os Extrovertidos mais bem sucedidos que os Introvertidos?

Os introvertidos representam entre um terço a metade dos elementos das equipas de trabalho. Estas são as pessoas que preferem estar em pequenos grupos íntimos a conversar, do que em grandes festas; tipicamente são mais reservados, refletindo bastante antes de falar; evitam grandes riscos; e não se importam de estar sozinhos. Normalmente encarados como tímidos, contrastam com os extrovertidos que adoram o cenário social e se sentem confortáveis no mesmo; gostam de ter atenção; são normalmente mais assertivos, proativos e impulsivos, sendo, por isso, bastante valorizados nas empresas atuais. Neste sentido, muitos dos locais de trabalho contemporâneos encontram-se desenhados somente com os extrovertidos em mente. Mas, porque será que isso acontece?

O norte e sul do temperamento 

Aquilo que somos é profundamente moldado pelo nosso género, pela nossa raça, pela nossa cultura e, principalmente, pela nossa personalidade. Dentro da personalidade, o espectro introversão-extroversão, ou o “norte e sul do temperamento”, é o aspecto individual mais importante e mais estudado pela Psicologia da Personalidade. O facto de sermos introvertidos ou extrovertidos, influencia as escolhas que fazemos e a forma como lidamos com a vida. Este factor dita os amigos que temos, a forma como conversamos, como discutimos, a profissão que escolhemos e até o sucesso que temos nela

A ideia de introversão e extroversão como pilar essencial da personalidade foi proposta inicialmente por Carl Jung, em 1921, no seu livro “Tipos Psicológico”. Segundo o autor, os introvertidos são atraídos para o seu mundo interno, recarregando baterias quando estão sozinhos, enquanto os extrovertidos preferem o mundo externo, sentindo-se mais energizados quando estão em atividades sociais.

Muitos dos testes de personalidade utilizados pelas universidades e empresas baseiam-se nestas noções. Contudo, não existe uma teoria consensual da personalidade, já que a introversão e a extroversão não são atributos fáceis de categorizar. Nem sempre olhamos para um indivíduo e percebemos de imediato a que pólo ele pertence. Outra das grandes teorias da personalidade, o Big Five (categoriza a personalidade em cinco traços primários) olha para a introversão como falta de assertividade e sociabilidade. Apesar das divergências quanto ao que define a personalidade humana, o ponto em que todas as teorias concordam é de que os introvertidos e extrovertidos possuem um nível diferente de estimulação externa necessária para funcionarem bem. Os primeiros sentem-se normalmente confortáveis com menos estimulação (por exemplo, a ler um livro, ouvir música suave, beber um copo com um amigo). Já os segundos, preferem mais agitação e atividades como conhecer pessoas novas, ir a uma festa ou fazer desportos radicais.

A esta altura, aqueles que nunca refletiram sobre o assunto estarão a questionar-se em que pólo se encaixam melhor. Neste sentido, propomos o “The Quiet Revolution Personality Test”, um pequeno questionário onde podem apurar rapidamente qual o vosso estilo de personalidade (dentro do espectro introversão-extroversão). Para os que possuem mais tempo e curiosidade sobre o assunto, sugerimos o Myers-Briggs Type Indicator, que é um teste mais completo e que propõe 16 tipos de personalidade (baseado na teoria de Jung). 

Extroversão

Como vimos, os extrovertidos precisam de mais estimulação externa e, por isso, dominam a esfera social. Sentem-se com mais energia quando estão com muitas pessoas, conhecidas ou desconhecidas. Por esta razão, são normalmente consideradas pessoas sociais, carismáticas, que conversam com qualquer pessoa e com potencial para cargos de liderança, onde possam expressar o seu ponto de vista. Animam qualquer jantar, rindo generosamente, pensam em voz alta, preferem falar a ouvir, nunca ficando sem o que dizer e, por vezes, até dizendo o que não querem. Normalmente, são mais assertivos, dominantes, espontâneos e não se importam com conflitos. Quando necessitam de estar em ambientes sossegados, sentem-se frequentemente aborrecidos e desconfortáveis. 

A nível de trabalho, prosperam em ambientes rápidos onde é necessário tomar decisões arriscadas, já que conseguem analisar rapidamente informação. Frequentemente, abordam as (por vezes múltiplas) tarefas de forma rápida e gostam de sentir a adrenalina de enfrentar um  desafio em troca de recompensas como dinheiro e status

Introversão 

Os introvertidos, por outro lado, são pessoas que preferem dedicar a sua energia a um pequeno grupo social com quem mantêm relações mais profundas, como os amigos e a família. São ponderados, ouvem mais do que falam , são mais cautelosos e apreciam a solidão. Não gostam de estar em locais muito barulhentos e cheios, preferindo passar o seu tempo em sítios calmos, onde podem pensar e estar somente consigo próprios. Por esta razão, apreciam atividades mais solitárias como dar uma longa caminhada ou ler um livro. Não são pessoas naturalmente assertivas e, por isso, evitam ao máximo os conflitos, utilizando uma linguagem mais cuidada quando pretendem tomar decisões, de forma a não imporem os seus desejos aos outros. 

No contexto profissional, tendem a trabalhar mais lentamente, focando-se numa tarefa de cada vez, onde podem dar o seu máximo. Normalmente, têm um forte poder de concentração e um grande potencial para projetos criativos, onde podem realmente pensar sobre os assuntos e apresentar ideias inovadoras (segundo o psicólogo Hans Eysenck, a introversão permite que o indivíduo se concentre na tarefa e não dissipe a sua energia com outros assuntos). Adicionalmente, são ainda particularmente imunes à fama e ao poder. 

Apesar de serem frequentemente apelidados de tímidos, nem todos os introvertidos o são (por exemplo, o Bill Gates apesar de ser uma pessoa reservada, não tem receio da opinião alheia). A timidez diz respeito ao medo da reprovação social e da humilhação, sendo uma característica partilhada por ambos os extremos do espectro. Já a introversão prende-se com a falta de interesse e motivação em estar presente em contextos sociais e não com o receio dos mesmos. 
Torna-se importante mencionar que todos nós somos seres complexos e, por essa razão, não existe o conceito de puro extrovertido ou puro introvertido. É normal que apresentemos comportamentos de ambos os pólos, já que estes interagem com os nossos outros traços de personalidade e com as nossas vivências pessoais.

O Ideal Extrovertido 

A literatura aponta que entre um terço a metade da população é composta por introvertidos. Contudo, nem sempre estes números são óbvios, já que existem muitos introvertidos que passam despercebidos ao se tentarem fazer parecer extrovertidos, seguindo os padrões de exigências do mundo corporativo atual. 

Este comportamento torna-se compreensível quando pensamos no sistema de valores em que vivemos atualmente. Susan Cain, no seu famoso livro “Silêncio: O poder dos introvertidos num mundo que não para de falar, apelida a crença de que o profissional ideal é um ser gregário, que se sente confortável sob as luzes da ribalta e se apresenta como um alfa, de o Ideal Extrovertido. Para a autora, a introversão é uma característica da personalidade cada vez mais menosprezada, traduzindo-se em aspetos como os novos métodos de ensino e de trabalho que privilegiam o trabalho em grupo e em espaços abertos, negligenciando o trabalho individual e solitário. Hoje em dia, as organizações exigem um grande volume de interação entre os seus profissionais, que trabalham essencialmente em enormes open spaces, onde ninguém tem uma sala sua. Contudo, os estudos indicam que estes espaços abertos reduzem a produtividade, têm maior rotatividade de pessoal, tornam as pessoas mais desmotivadas, inseguras e potenciam os conflitos. 

O trabalho em grupo tem os seus benefícios, no entanto, vários estudos também alertam para os seus perigos. Fenómenos como a preguiça social (social loafing – num grupo, alguns indivíduos tendem a despender menos esforço a realizar a tarefa do que se estivessem sozinhos) ou a conformidade de grupo (num grupo, os indivíduos tendem a seguir as opiniões dominantes, mesmo que não concordem), ocorrem frequentemente e devem ser acautelados. Desta forma, nem sempre as pessoas mais carismáticas e com melhor discurso têm as melhores ideias, mas são esses indivíduos que os grupos tendem a seguir.  

No entanto, por que se começaram a desenhar assim os escritórios e as salas de aula? A resposta poderá estar na evolução cultural da sociedade ocidental. Na entrada do século XX, com a migração das populações das pequenas povoações para as grandes cidades, transitamos de uma Cultura de Carácter (que valoriza o indivíduo sério, disciplinado e honrado),  para uma Cultura de Personalidade (glorificação do ser carismático e audacioso). Neste novo contexto, as pessoas mais bem sucedidas são aquelas que se conseguem destacar das restantes e, assim, podemos compreender por que livros como “Como fazer amigos e influenciar pessoas” de Daniel Carnegie, se tornaram enormes bestsellers da sociedade contemporânea. É por esta razão, que os traços que caracterizam os extrovertidos acabam por ser os mais desejados e que os introvertidos se sentem pressionados a serem como eles, sem sequer se aperceberem disso conscientemente.  

Como dizem sabiamente os filósofos, no meio está a virtude. Saber aproveitar as vantagens de ambos os lados da  moeda é sempre a melhor abordagem. Francesca Gino demonstra com os seus estudos que as equipas lideradas por extrovertidos têm mais sucesso, quando os seus membros são compostos por introvertidos que aceitam a visão do líder e seguem as suas indicações. Por outro lado, quando o líder é um introvertido, a equipa apresenta melhores resultados quando os seus membros são pessoas proativas que desafiam a norma e procuram melhores estratégias, ou seja, extrovertidos. Desta forma, deve-se, sim, continuar a admirar e aproveitar as qualidades daqueles que possuem uma inclinação para a extroversão. Porém, deve-se também dar espaço aos que procuram a companhia dos seus próprios pensamentos, de forma a que também estes possam fazer uso das suas qualidades e contribuir ativamente para a resolução dos problemas complexos que a enfrentamos atualmente.


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