Por que devemos ser generalistas num mundo de especialistas.

Homem a olhar para um computador fixo com oculos nas mãos

Uma das formas através das quais as empresas procuram organizar as suas equipas em termos de produtividade e eficiência é recorrendo à especialização. Os trabalhadores são encarregues de um conjunto de tarefas muito específicas que, com tempo e repetição, vão acabando por aperfeiçoar, tornando-se assim especialistas. Mas, num mundo em que a regra das dez mil horas nos é constantemente apresentada como o caminho para a mestria, as empresas parecem voltar a procurar os profissionais mais generalistas que conseguem estabelecer relações entre pontos onde outros não conseguem ver uma ligação. 

Um bom profissional certamente que se pergunta várias vezes o que poderá fazer para se tornar ainda melhor. Atualmente, a literatura sobre a produtividade aponta fortemente para a especialização. A regra das dez mil horas é uma das mais partilhadas como sendo uma receita simples para atingirmos a especialização em determinada área. Malcom Gladwell, no seu livro Outliers, conta várias histórias de sucesso que se baseiam nesta noção de que para nos tornarmos realmente mestres em algo devemos passar cerca de dez mil horas durante a nossa vida a repeti-lo. Para os seguidores desta ideia, o único fator determinante para o desenvolvimento de competências é o número de horas acumuladas de treino altamente especializado, qualquer que seja a área.

Especialistas – o caso de Tiger Woods 

Ora voltemo-nos para o mundo do desporto. Ao analisarmos a história de Tiger Woods esta regra parece encaixar-se na perfeição. Com seis meses de idade já se equilibrava na palma da mão do seu pai enquanto este andava pela casa e com sete começou a brincar com um taco de golfe. Aos dez meses já imitava o swing que o seu pai fazia e com dois anos participou no seu primeiro torneio, o qual ganhou na categoria de menos de dez anos. Com oito anos venceu o pai pela primeira vez (que também era um atleta destacado) e quando chegou à universidade já era famoso. 

Woods é um símbolo para aqueles que reivindicam que a quantidade de ensino orientado a uma área, determina o sucesso e que este deve-se iniciar o mais cedo possível. Fora do mundo do desporto, esta noção tem sido cada vez mais divulgada. Para conseguirmos navegar num mundo mais competitivo e complexo, somos aconselhados a tornar-nos cada vez mais especializados. Dentro da medicina, por exemplo, os oncologistas já não se especializam em cancro, mas sim no cancro relacionado com um órgão em particular. 

A hiperespecialização

Olhando para as estatísticas do Linkedin, conseguimos perceber a grande procura pela hiperespecialização nos anúncios de emprego focados em “especialistas”. Estes, devido ao seu grande conhecimento sobre o tema em causa, conseguem identificar oportunidades emergentes dentro da área e colaborar melhor, já que facilmente se conseguem dividir. É mais simples dividir uma equipa se tivermos um tester, um java developer e um analista funcional, do que se tivermos três profissionais que já fizeram um pouco de tudo. A especialização é ainda bastante útil quando pretendemos que o resultado de determinada ação seja perfeita, como é o caso da saúde. Quanto temos de ser operados, procuramos os melhores cirurgiões, isto é, aqueles que já têm largos anos de prática a fazerem exatamente o mesmo tipo de operações e nos quais podemos confiar nos outcomes

Por outro lado, as histórias de sucesso, na sua grande maioria, não são assim tão lineares. Casos como o de Tiger Woods, que são treinados e direcionados para uma área em específico desde o berço, acabam por ser a excepção, mas são as histórias que mais impressionam e que, por isso, mais vendem. 

Generalistas – o foco na inovação 

Voltando ao desporto, exemplos como o de Roger Federer, que teve a oportunidade de experimentar diferentes modalidades até se focar num desporto em específico (ténis) são muito mais comuns. Os britânicos atingiram os melhores resultados em décadas nos jogos olímpicos, quando adotaram programas criados especificamente para adultos experimentarem novas modalidades, captando assim atletas tardios. O mesmo acontece no futebol. Em 2014, quando a Alemanha ganhou o Campeonato do Mundo de Futebol, uma equipa de cientistas alemães demonstrou que os membros da sua seleção nacional eram jogadores que, até completarem 22 anos, tinham, maioritariamente, jogado a nível de amadores e experimentado outras modalidades enquanto jovens. 

O ambiente em que os profissionais se inserem também tem um papel fundamental. Quando os psicólogos Gary Klein e Daniel Kahneman se juntaram, em 2009, para perceber se os especialistas melhoram com a experiência, chegaram à conclusão de que dependia completamente da área em questão. No golfe ou no xadrez, a bola ou a peça movimentam-se segundo regras definidas e as consequências acontecem rapidamente e de forma visível perante o jogador. Este tipo de ambientes onde o jogador pode observar o que aconteceu, corrigir os erros e tentar de novo denominam-se de acolhedores, pois quem aprende melhora com a prática. Por outro lado, quando as regras do jogo são difusas, podem ou não existir padrões repetitivos e não existe feedback instantâneo, a experiência poderá até reforçar uma aprendizagem errada. Um bombeiro pode ser muito experiente, mas quando tem de enfrentar uma situação nova num incêndio, a sua intuição profissional poderá inclusive levá-lo a tomar más decisões.   

Em contexto organizacional, os generalistas também acabam por ter uma vantagem quando o tema é inovação. Um dos fatores fundamentais para a criatividade é a capacidade de combinar diferentes áreas de especialização e ver mais além. Em 2020, Bill Gates atribuiu o sucesso da Microsoft às suas equipas compostas por generalistas que apresentavam experiências bastante diversificadas. 

O caso da Nintendo

A Nintendo é um bom exemplo da vantagem na hora da inovação que um generalista pode oferecer. Nos anos 60, quando a empresa fabricava cartas hanafuda e se encontrava a afundar em dívidas, o presidente apostou na contratação de recém-licenciados como forma de inovar. Foi assim que Gunpei Yokoi, depois de terminar o curso em eletrónica com algumas dificuldades, entrou para a empresa e assumiu as funções de assistência às máquinas de fabrico de cartas. Yokoi, que tinha um grande conjunto de hobbies, desde piano, danças de salão, coro, comboios elétricos, mecânica, entre outros, um dia lembrou-se de cortar pedaços de madeira e construir um braço extensível simples. Na ponta do mesmo colocou uma espécie de alicate que se fechava quando ele acionava as alavancas para esticar o braço. O presidente ao ver este engenho pediu a Yokoi que o transformasse num jogo e assim nasceu o “Ultra Hand”. 

Após alguns anos de novos brinquedos bem sucedidos e outros nem tanto, Yokoi tornou a inovar através do “pensamento lateral com tecnologia já explorada”. Como tinha interesses em diversas áreas, conseguia fazer conexões entre tecnologia existente, que os especialistas da área, estando demasiado focados, não conseguiam imaginar. Combinou  tecnologia conhecida da indústria das calculadoras com tecnologia da indústria dos cartões de crédito e construiu jogos portáteis que podem ser jogados discretamente numa viagem de comboio. Numa época em que a tendência era criar jogos de grande dimensão, a portabilidade, durabilidade, preço e comodidade desta inovação, tornou o “Game Boy” um dos produtos mais bem sucedidos da história da Nintendo.

Sermos pássaros num mundo de sapos

As notícias que giram em volta de temas como a produtividade, tendem a enaltecer as histórias de sucesso similares às de Tiger Woods, deixando de lado aquelas que se assemelham às de Roger Federer. Os caminhos simples em que basta ligar o ponto A ao ponto B têm um charme especial e criam-nos uma noção errada do que é preciso para se ser bem sucedido. 

Como defende David Epstein, a via de Woods acaba por minimizar a importância que os desvios, a versatilidade e a experimentação têm no caminho para o sucesso. Contrariamente à noção popular, os músicos alcançam grandes feitos através da diversidade de percursos e a hiperespecialização precoce nem sempre é necessária no desenvolvimento de competências, sendo até rara nas formas de maior improviso. Um dos maiores pianistas do século XX, Sviatoslav Richter, apenas começou a ter aulas formais quando tinha 22 anos. Como vemos, existem muitas formas de termos sucesso. Quer optemos pela especialização ou por um conhecimento mais alargado, o importante é não desvalorizarmos o caminho oposto.

Como o grande físico e matemático Freeman Dyson o colocou: existem profissionais que são pássaros e outros que são sapos. Os primeiros conseguem voar alto e observar paisagens alargadas, conseguindo juntar diversos tipos de conhecimento. Já os segundos, vivem no chão e conseguem observar os detalhes das flores que crescem perto de si. Adoram estudar e resolver ao pormenor um problema de cada vez. O ecossistema necessita que ambos os animais o explorem. Não existe um que seja mais necessário que o outro. É assim que também devemos pensar sobre os generalistas e especialistas. O mercado de trabalho para evoluir necessita de ambos, já que estes trazem diferentes vantagens às equipas.


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