Vida pessoal e profissional: integrar ou equilibrar?

homem a trabalhar com computador e criança a interromper

Todos sabemos que o trabalho é uma parte da vida, mas não tem necessariamente de ser toda a nossa vida. No entanto, as estratégias que funcionam para uma pessoa também não têm propriamente de funcionar para a outra. Com o aumento do número de casos de burnout e despedimentos voluntários, o tema da relação que o trabalho tem ou deverá ter na nossa vida, é cada vez mais relevante. Enquanto para uns, o trabalho só faz sentido se estiver circunscrito a um horário, para outros o ideal é poderem misturar ambas as esferas da sua vida. Neste artigo iremos explorar as diferenças entre o equilíbrio e a integração da vida pessoal e profissional e enquadrar a experiência pessoal do nosso consultor Bruno Silva com o tema. 

O equilíbrio e a integração entre a vida pessoal e profissional no contexto geracional

O debate sobre a relação entre o trabalho e a vida já tem alguns anos, mas apesar de tudo, antes de 1986 não era um tema tão relevante como nos dias de hoje. Depois da Segunda Guerra Mundial, os soldados, principalmente nos EUA, voltaram a casa e acompanharam um período de enorme expansão económica. Quando alguém entrava no mercado de trabalho da época, tornava-se um “Company Man”, cuja carreira terminava inevitavelmente com uma reforma após vários anos de trabalho. Nesta altura, a procura de alguma espécie de equilíbrio entre a vida pessoal e profissional não era sequer uma questão, pois quem o fizesse seria percepcionado como tendo falta de seriedade e comprometimento para com o seu trabalho. 

Nos anos 70 as coisas começaram a mudar com o surgimento da Geração X que havia testemunhado os despedimentos dos seus pais e, por isso, quando entraram no mercado de trabalho já tinham a noção de que não deveriam confiar somente na boa vontade das empresas. Por isso, muitos profissionais desta época abraçaram o empreendedorismo como forma de ultrapassar esta desconfiança, tendo culminado na era dot.com

Estes locais de trabalho eram, por norma, menos formais, mais focados na igualdade e na experimentação. Foi nesta altura que algumas das primeiras questões sobre o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal começaram a ter espaço para florescer, mas o trabalho ainda mantinha a sua importância na vida dos indivíduos. 

Com o aparecimento dos Millennials as coisas começaram a mudar. Esta é a geração que introduziu a integração entre a vida pessoal e a profissional (que não representa o mesmo que equilíbrio). Estes profissionais já não procuram apenas equilibrar as duas esferas da sua vida como a geração anterior, mas sim integrá-las quebrando os muros que as separam. 

Apesar de por vezes ser por necessidade, os Millennial procuram desenhar a sua própria carreira através de trabalho flexível e em part-time que sirva de complemento ao que já possuem. Para esta geração, o importante é encontrarem o seu propósito e isso poderá passar por desempenhar uma diversidade de trabalhos diferentes. O tipo de trabalho que realizam (focado no conhecimento), também acaba por lhes permitir ter um estilo de vida mais nómada e maior facilidade em trocar de emprego. 

Por fim, temos a Geração Z que ainda se encontra em definição, mas que já se nota que irá continuar a implementar as mudanças que a geração anterior iniciou. Também estes têm a consciência de que não podem esperar que as empresas tomem conta do seu futuro e lhes proporcionem estabilidade, nem que tampouco terão acesso a uma reforma digna. Esta conjetura acaba assim por moldar a forma como estes profissionais encaram o trabalho e a sua dinâmica, dando maior importância a hobbies que lhes dão prazer e que poderão vir a trazer algum rendimento extra. 

O corte com o excesso de trabalho

Como podemos ver, o contexto social e económico acabou por influenciar em muito a relação que os profissionais têm com o trabalho e, atualmente, o mercado engloba várias gerações com visões diferentes relativamente a este tema, trazendo formas diferentes de encarar o trabalho. No entanto, os Millennials e a Geração Z acabam por trazer uma maior disrupção ao quebrarem com o relevo tradicional que o trabalho sempre teve na vida dos profissionais e procurarem formas de destacarem mais a sua esfera pessoal. Por outro lado, a forma como o tentam fazer nem sempre é consensual e é neste contexto que o debate entre a integração vs o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional surge. 

Se há algo em que ambas as gerações concordam é que a vida pessoal não deve ser posta de parte em prol somente da profissional. Nas palavras do nosso consultor Bruno Silva que trabalha como Java Developer num projeto de telecomunicações: “há sempre tempo para tudo, para o trabalho e para dedicar umas horas por semana para desenvolver um projeto pessoal e aprender mais, desenvolver mais a nível de ferramentas de desenvolvimento software e termos a nossa vida, estar com a nossa família, amigos, etc. Acho que há tempo para tudo, só é preciso planear, mas também há pessoas que gostam mesmo muito a sério desta área e têm um amor enorme, gostam muito de aprender e se calhar aí estendem um bocadinho mais o tempo que dedicam a projetos pessoais (…) acho que é uma escolha de cada um, no entanto há um certo limite porque acho que não é saudável estar demasiado tempo em frente a um computador”. 

Como também pudemos observar através de fenómenos recentes como  “The Great Resignation” (onde um grande número de profissionais, um pouco por todo o mundo, decidiu voluntariamente mudar de emprego) e o “Quiet Quitting” (descreve o ato de apenas realizar o exigido pelas funções e nada mais) muitas pessoas já não aceitam que o trabalho lhes retire um conjunto de coisas que consideram importantes na sua vida. Para além disso, juntam-se os relatos de burnout que, mais do que nunca, inundam os meios de comunicação social e que acontecem em diversas profissões, principalmente naquelas relacionadas com a economia do conhecimento. Adicionalmente, segundo o Bruno, a própria cultura do país poderá agravar este tipo de situações: “…acho que acontece não só nesta área [informática], acontece em muitas outras áreas e tem muito a ver com a cultura portuguesa. Às vezes é preciso impormo-nos um bocadinho porque o burnout surge porque estamos a trabalhar demasiado tempo para aquilo que devíamos, estamos a ir além das oito horas. Fazer isso uma vez por outra diria que é normal porque às vezes há prazos a cumprir (…), mas fazer disso regra (…) acho muito perigoso”. 

Então e como romper com este ciclo e insatisfação com a carga de trabalho? 

O equilíbrio e a integração entre a vida pessoal e profissional – qual escolher?

Como resposta a esta onda de insatisfação, a adoção de estratégias para equilibrar ambas as partes da vida ou integrá-las, poderá ser benéfica, tendo em conta as necessidades de cada um. 

Quem opta por equilibrar a sua vida pessoal e profissional, procura estabelecer fronteiras claras entre as horas de trabalho e as horas focadas noutros âmbitos, já que esta filosofia foca-se em manter ambas bem separadas. Neste sentido, poderá ser benéfico criar blocos específicos de tempo dedicados somente ao trabalho durante os quais o foco é nas  tarefas laborais. Fora destas horas o oposto acontece e os temas do trabalho não entram. 

Esta forma de equilíbrio acaba por permitir que os profissionais dediquem a sua atenção total ao que se encontram a fazer, não sendo distraídos por outras situações. Quando estão a trabalhar, estão 100% dedicados às tarefas em mãos e não a pensar nas tarefas que têm de fazer em casa, por exemplo. Depois, quando terminam o trabalho, podem também dedicar-se na totalidade às pessoas e às atividades que ocupam a sua vida pessoal, permitindo que se sintam menos stressadas, mais presentes e comprometidas com a sua vida. 

Por outro lado, quem prefere misturar o seu tempo de trabalho com tarefas da sua vida pessoal, estará mais confortável ao adotar estratégias de integração entre a vida pessoal e profissional. Aqui as linhas que separam ambas as partes são muito ténues e as responsabilidades poderão misturar-se. Assim, as pessoas que optam por este caminho acabam por escolher quando preferem tratar das suas diferentes tarefas, podendo resolver assuntos pessoais durante o “horário laboral” e de trabalho durante as “horas de lazer”. 

O maior benefício desta estratégia é a flexibilidade sentida por quem a adota, já que permite coordenar diferentes horários e tarefas de forma mais produtiva, trazendo maior satisfação (sempre que existir também um certo equilíbrio entre o tempo dispendido em cada área da vida, caso contrário surgem as situações de burnout discutidas anteriormente). Esta integração ajuda a que seja possível fazer o que é necessário quando é efetivamente necessário independentemente do horário em que é feito. Deste modo será possível, por exemplo, ver televisão enquanto se responde a alguns e-mails ou tomar conta dos filhos enquanto se trabalha, permitindo uma melhor coordenação entre ambas as esferas da vida.  

Por si só, nenhuma destas perspectivas é melhor do que a outra, são as duas válidas. Ambas têm benefícios dependendo da vida, do trabalho e das preferências de cada um. Pessoas diferentes acabam por ter objetivos, responsabilidades e necessidades diferentes também, pelo que uma estratégia poderá ser mais adequada para um profissional do que para outro, não sendo inerentemente melhor ou pior. O que importa é que no fim do dia, estejamos todos satisfeitos com a vida profissional e pessoal que levamos!


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