Da investigação ao hospital: o desafio de inovar na saúde

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Escrito por

Marina Pinho

Communication Manager

Quando um doente faz radioterapia, existe um plano cuidadosamente definido para determinar a quantidade de radiação que deve receber. Mas há uma questão menos evidente: como garantir que a radiação administrada corresponde, efetivamente, à que foi planeada?

É precisamente este problema que a NU-RISE, uma startup portuguesa da área dos dispositivos médicos, procura resolver. No episódio #45 do podcast De Candidat@ a Contrato, conversámos com Joana Melo, cofundadora e Chief Operating Officer da empresa, sobre inovação na saúde, empreendedorismo e os desafios de transformar investigação científica numa solução com impacto real na vida dos doentes.

Formada em Engenharia Física pela Universidade de Coimbra, Joana juntou-se à NU-RISE em 2016, quando a empresa estava a formar a sua primeira equipa. Quase uma década depois, prepara a entrada de uma tecnologia portuguesa no mercado norte-americano.

Tornar visível o que acontece durante a radioterapia

A radioterapia é um dos tratamentos utilizados no combate ao cancro. Apesar da precisão dos planos clínicos, existe uma diferença entre calcular a dose de radiação e confirmar o que acontece durante a sua administração.

A tecnologia desenvolvida pela NU-RISE procura colmatar essa diferença, permitindo monitorizar, em tempo real, a radiação que chega ao doente.

O objetivo é dar às equipas clínicas informação adicional sobre o tratamento, contribuindo para uma maior segurança e precisão. Trata-se de um desafio particularmente relevante numa área em que os efeitos secundários da radiação podem ter consequências graves.

Mas desenvolver uma solução tecnológica é apenas uma parte do problema. Como explica Joana, é igualmente importante garantir que o dispositivo se adapta aos procedimentos clínicos existentes, sem introduzir complexidade desnecessária no trabalho dos profissionais de saúde.

Desenvolver tecnologia não é o mesmo que criar um produto

Uma das ideias mais interessantes da conversa é a distância que existe entre uma descoberta científica e a sua aplicação no mercado.

Para Joana, não basta demonstrar que uma tecnologia funciona. É necessário compreender as necessidades dos profissionais de saúde, os requisitos regulamentares, os riscos associados à utilização e até as condições comerciais que tornam possível a sua adoção.

“Trazer um produto para o mercado não é simplesmente desenvolver uma tecnologia.”

Esta perspetiva acompanhou o crescimento da NU-RISE. Ao longo dos anos, a empresa teve de ultrapassar desafios técnicos, adaptar o produto às necessidades das equipas clínicas e enfrentar processos regulamentares particularmente exigentes.

O percurso foi longo e nem sempre linear. Joana reconhece que algumas etapas poderiam ter avançado mais depressa, mas sublinha também a importância da persistência e da capacidade de ajustar o caminho sem perder de vista o objetivo.

Porque é que uma startup portuguesa escolheu os Estados Unidos?

A decisão de avançar primeiro para o mercado norte-americano foi outro dos temas centrais do episódio.

Apesar de ser um mercado altamente competitivo, os Estados Unidos ofereciam à NU-RISE uma vantagem importante: maior previsibilidade nos processos de aprovação de dispositivos médicos.

Na Europa, a transição regulamentar criava incerteza quanto aos prazos e custos necessários para comercializar a tecnologia. Já a FDA, a autoridade norte-americana responsável pela regulamentação destes dispositivos, apresentava um percurso mais definido.

A escolha levou Joana a refletir sobre uma diferença que considera marcante entre os dois mercados: enquanto a Europa se concentra fortemente na regulamentação, os Estados Unidos destacam-se pela capacidade de promover a inovação.

É uma reflexão que ultrapassa o caso da NU-RISE e levanta uma questão relevante para outras empresas tecnológicas europeias: como garantir a segurança sem criar obstáculos que atrasem a chegada de novas soluções ao mercado?

joana melo nurise

Liderar uma startup é aprender a escolher prioridades

Joana também partilha o lado menos visível do empreendedorismo: a escassez de recursos, a pressão constante para avançar e a dificuldade de desligar quando há sempre mais trabalho por fazer.

Desde o início, procurou um ambiente profissional onde pudesse experimentar, assumir diferentes responsabilidades e perceber o impacto direto do seu trabalho. Encontrou tudo isso numa startup, mas também uma exigência permanente de adaptação.

Hoje, com responsabilidades de liderança e dois filhos pequenos, reconhece que o tempo se tornou um dos recursos mais valiosos. Aprendeu a ser mais seletiva, a distinguir o urgente do importante e a concentrar-se nas decisões que realmente fazem a diferença.

A conversa aborda ainda a inteligência artificial e o seu potencial na saúde. Para Joana, estas ferramentas podem acelerar o trabalho das equipas, embora a sua utilização em contextos clínicos continue a exigir especial atenção à segurança e aos requisitos regulamentares.

No fundo, o percurso da NU-RISE mostra que a inovação não acontece apenas nos laboratórios. Exige conhecimento científico, capacidade de execução, proximidade com quem vai utilizar a tecnologia e disponibilidade para enfrentar anos de incerteza.

Talvez seja essa a principal mensagem da conversa com Joana Melo: uma boa ideia pode dar origem a uma tecnologia, mas é a capacidade de a transformar numa solução útil que permite criar impacto.

🎙 SOBRE O PODCAST

De Candidat@ a Contrato é um podcast onde partilhamos dicas e experiências sobre como navegar o mercado de trabalho português. Se estás a gostar de ouvir o podcast, deixa-nos uma avaliação ⭐!️

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