Do suporte técnico ao mundo do Business Intelligence, o percurso de Leonardo Maia é um exemplo de como a curiosidade certa pode transformar dados em decisões com impacto.
Atualmente consultor de BI na Dellent, colabora com um cliente do setor das telecomunicações e partilha connosco, nesta entrevista, a sua visão sobre o dia a dia da função, os desafios mais comuns e o que é preciso para crescer nesta área em constante evolução.
Falamos de bases de dados, dashboards e decisões estratégicas, mas também de competências essenciais, da adaptação à cloud e do papel crescente da inteligência artificial no trabalho de quem está, todos os dias, a transformar informação em valor real para o negócio.
Para começar, conta-nos um pouco sobre o teu percurso. Como chegaste até ao mundo do BI?
É interessante porque comecei em Suporte, como a grande maioria das pessoas que entra na área de IT. Quando iniciei a faculdade, a minha intenção era trabalhar com web - programação web, web design, esse tipo de coisas. No entanto, a meio do percurso comecei a trabalhar como analista de sistemas e foi aí que tive o primeiro contacto com bases de dados.
Nessa fase inicial ainda não se falava muito do tema; estávamos no ano 2000 e o BI não era muito difundido. Embora já existisse desde 1975 ou 1977, em Fortaleza, onde eu vivia, no Brasil, não tinha grande expressão.
Com o passar do tempo, depois de terminar a faculdade, comecei a trabalhar como analista de sistemas, a programar um pouco em Java e em ASP. Ainda assim, nunca me senti um bom programador. Não me enquadrava totalmente na área de programação. Em contrapartida, sempre gostei da componente de programação em bases de dados e senti-me naturalmente atraído pelo SQL.
Por volta de 2007/2008, trabalhei numa empresa onde já existia BI e comecei a olhar para essa área de outra forma. No entanto, nessa altura, ainda não tinha feito a transição.
Em 2010/2012 surgiu uma oportunidade para trabalhar com tratamento de dados. Ainda não era propriamente a área de BI, mas comecei a tratar dados para auditoria interna. Extraía os dados da base de dados e fazia o respetivo tratamento para que os auditores pudessem realizar a auditoria interna. Foi aí que percebi que gostava de trabalhar com dados.
Depois dessa empresa, transitei para outra onde fui responsável pela implementação do BI. Comecei a estudar, a aprofundar conhecimentos, sobretudo nas ferramentas de visualização, que são aquilo que toda a gente vê, a componente de frontend, e que acaba por chamar mais a atenção do utilizador final. Quando percebi o potencial dessa área, levei a proposta ao meu gestor e expliquei que poderia ser uma boa oportunidade para a empresa. Ainda assim, demorou algum tempo até que ele conseguisse convencer a direção, que não tinha grande familiaridade com o tema.
Foi por volta de 2015 que comecei, efetivamente, a trabalhar com BI. Durante parte do dia desempenhava funções na área de análise de sistemas, com relatórios mais focados na componente de bases de dados, e na outra parte do dia trabalhava diretamente com BI. Foi nesse ano que comecei realmente a enveredar pelo caminho do BI.
Frequentei uma formação e comecei a implementar. A equipa já tinha experiência na área de bases de dados, mas, ainda assim, a modelação é diferente: passa-se de uma modelação relacional para uma modelação dimensional. Tivemos, por isso, de criar uma base de dados. Não lhe chamaria ainda um data warehouse (no sentido de uma modelação transversal para toda a empresa) porque era um projeto inicial, mas sim um data mart, ou seja, uma parte de um data warehouse orientada para um setor específico.
Foi criado um data mart para uma área concreta, a área educacional, com o objetivo de analisar o desempenho dos alunos. Procurávamos perceber, por exemplo, se um aluno que tinha bons resultados a Português tinha dificuldades a Matemática, esse tipo de correlação. Também queríamos compreender porque é que os alunos de determinadas turmas tinham melhores resultados do que outros, se o professor fazia diferença, entre outros fatores.
Foi uma experiência bastante interessante. Numa fase inicial foi contratada uma consultoria para dar suporte, uma vez que ninguém tinha experiência na área. Depois da saída da consultoria, fiquei responsável pelo BI. Passei a desenvolver todos os dashboards e relatórios da empresa nas várias áreas, educacional, financeira e de recursos humanos.
Quais foram os maiores marcos ou transições na tua carreira até hoje?
O primeiro grande marco aconteceu quando deixei o suporte e passei para a área de desenvolvimento, como analista de sistemas. Até então trabalhava essencialmente com hardware e, a partir desse momento, comecei a trabalhar com software. Esse foi o primeiro grande marco da minha carreira, por volta de 2004/2005.
O segundo grande marco surgiu quando comecei a trabalhar com tratamento de dados. Foi em 2015, embora tenha ido e voltado algumas vezes, uma vez que também desempenhei funções como auditor de sistemas. A partir daí passei a dedicar-me exclusivamente ao trabalho com dados e BI.
O terceiro grande marco foi a mudança de país, em 2023, que representou uma transição significativa na forma de trabalhar.
O que mais te fascina no universo do Business Intelligence?
Não existe propriamente uma rotina, há sempre algo novo para fazer. É desafiante precisamente por isso, porque surgem frequentemente situações que nunca fizemos antes. Há sempre algo novo para aprender, seja em termos de tecnologias ou de abordagens.
Na área de IT, de forma geral, estão constantemente a surgir novas ferramentas e novas soluções, o que nos obriga a aprender e a evoluir continuamente.
Para além disso, quando conseguimos entregar um relatório ou um dashboard que faz realmente a diferença na empresa, é muito gratificante. O nosso trabalho pode, de facto, mudar o rumo da organização.
Por exemplo, quando trabalhei na área de auditoria, também fazia tratamento de dados e dashboards. Houve um momento em que a própria equipa realizou uma auditoria e, à medida que começámos a estruturar os dados nos dashboards e a fazer o respetivo tratamento, conseguimos identificar discrepâncias financeiras. Acabámos por descobrir um desvio na empresa. Foi um impacto significativo, porque se tratava de um desvio que a empresa desconhecia. A situação foi reconhecida e, no final, a empresa conseguiu recuperar o valor.
Há alguma fase do processo, desde a recolha de dados à visualização, que gostes particularmente?
Gosto mais da parte da visualização. Gosto do tratamento, mas prefiro a visualização. Eu tive formação de designer quando era mais novo e por isso gosto de finalizar. De fazer algo com impacto.
Que tipo de projetos ou setores mais te motivam?
Na verdade, não tenho nenhuma preferência específica. Já trabalhei com áreas financeiras, recursos humanos, educação e, atualmente, com call center. Não existe uma área preferida, mas é interessante trabalhar com a área financeira por ser a mais comum e aquela onde é mais fácil demonstrar resultados.
Os impactos são mais visíveis para a empresa, porque os resultados financeiros tendem a ser mais imediatos e mensuráveis. As organizações valorizam muito esta área, sobretudo quando percebem que estão a poupar dinheiro ou que precisam de alterar a estratégia. Esse impacto é bastante significativo.
Atualmente, estás a trabalhar num projeto com que tipo de cliente ou setor?
Atualmente trabalho num projeto de telecomunicações mais focado na área de atendimento, nomeadamente em operações de outbound e inbound, chamadas atendidas, entre outros indicadores.
As informações mais relevantes passam pelo número de chamadas atendidas e realizadas, callbacks, tempo médio de atendimento e tempo de resposta. Como a empresa tem um setor de atendimento muito forte, consegue medir estes tempos e perceber se o cliente está ou não satisfeito.
No final, o próprio cliente classifica se foi bem atendido ou não, o que ajuda a avaliar o desempenho dos agentes. Através dos dashboards que desenvolvemos, a empresa consegue identificar o que está a funcionar bem, o que precisa de ser melhorado e, a partir daí, otimizar o serviço prestado.
Como está organizada a equipa e quais são as tuas responsabilidades no dia a dia?
A equipa é bastante grande e está dividida em várias áreas. A nossa equipa, em particular, é composta por quatro pessoas: um líder e três analistas. Um dos analistas está mais focado na administração de bases de dados, outro trabalha sobretudo na área de ETL, e eu desempenho uma função mista, combinando frontend e ETL. O nosso tech lead está mais direcionado para o frontend.
O meu papel envolve, precisamente, essa combinação entre ETL e frontend. Trabalhamos por demanda e, por exemplo, num determinado dia posso ter vários ETLs para desenvolver, fazer tratamento de dados e, posteriormente, integrar essa informação nos dashboards.
Por vezes surgem também novos clientes, incluindo clientes externos, aos quais temos de dar resposta. Desenvolvemos dashboards para clientes e gestores de conta, sempre com foco nos contactos telefónicos, e-mail ou SMS. Quando entra um novo cliente, é necessário criar tudo de raiz, adaptando o modelo base que já existe.
Que ferramentas ou tecnologias BI utilizas neste projeto (ex.: Power BI, Tableau, SQL, Azure, etc.)?
Utilizamos SQL puro para armazenar e tratar os dados. Recorremos ao Power BI Report Services para a criação de relatórios impressos e ao Power BI para o desenvolvimento dos dashboards.
Que impacto direto vês no negócio do cliente?
Do lado do cliente final, é possível medir toda a componente relacionada com a rapidez do atendimento, perceber se os processos estão a funcionar corretamente, identificar pontos de melhoria e avaliar quais os agentes que apresentam melhor desempenho e quais os que não estão a ser tão produtivos.
Com base neste conjunto de métricas, conseguem tomar decisões informadas sobre o que devem ou não fazer a seguir.
Para quem não está familiarizado, como explicarias o papel de um consultor de BI?
O nosso papel passa por pegar nos dados que existem na empresa, independentemente da área, e torná-los legíveis para que quem toma decisões consiga fazê-lo de forma informada e assertiva sobre o negócio. É um processo semelhante a pegar em código e transformá-lo em texto compreensível.
Envolve, por exemplo, remover registos de teste que não entram na análise. As bases de dados acabam por acumular muita “sujidade” e é necessário fazer esse trabalho de limpeza para garantir que a informação analisada é fiável.
Quais são, na tua opinião, as principais competências que um bom profissional de BI deve ter?
Ter conhecimentos de bases de dados e de SQL é fundamental. É igualmente importante dominar uma ferramenta de visualização, compreender a modelação dimensional e perceber bem o negócio e a área com que se está a trabalhar.
Por isso, é muito relevante ter experiência em várias áreas, pois permite adquirir uma visão mais ampla e conhecer diferentes realidades.
Costumamos brincar dizendo que, muitas vezes, o gestor não sabe exatamente o que quer, mas sabe muito bem o que não quer. Se eu entregar algo que não corresponde às suas expectativas, ele vai perceber de imediato. Por isso, o consultor de BI tem de conseguir antecipar aquilo que o gestor realmente precisa, mesmo quando isso não está totalmente claro à partida.
Que tipo de desafios técnicos e humanos costumas enfrentar?
O mais importante é compreender o que o gestor realmente pretende, porque muitas vezes ele acha que quer uma coisa, mas a informação necessária nem sequer existe da forma como imagina. Nesses casos, temos de encontrar alternativas para entregar algo o mais próximo possível do que foi pedido.
É comum encontrarmos bases de dados com muita “sujidade” ou com uma modelação incorreta que não pode ser alterada por se tratar de sistemas legados. Nesses cenários, é necessário fazer algum “malabarismo”, criar medidas DAX bem elaboradas e colunas calculadas, tarefas que exigem muito trabalho e que são difíceis de alterar posteriormente.
Existe também a componente humana: nem sempre é fácil perceber, a partir do stakeholder, o que ele realmente quer, o que obriga à realização de várias reuniões. Um dos aspetos mais frustrantes é quando entregamos um trabalho que não chega a ser utilizado. Já me aconteceu passar semanas a desenvolver algo, entregar um resultado excelente e, ainda assim, ver esse trabalho acabar por não ser usado.
Que conselhos darias a quem está a começar ou quer entrar na área de BI?
Saber SQL é fundamental, é algo que tem mesmo de se aprender. Hoje, o BI é uma área muito ampla e pode ser dividida em várias vertentes, mas a base continua a ser o SQL.
Para quem quer trabalhar com tratamento de dados, é essencial dominar ferramentas de ETL. Muitas empresas estão atualmente a migrar para a cloud e, embora não seja obrigatório, é claramente uma mais-valia ter conhecimentos de algumas ferramentas em ambiente cloud.
Algo que considero também importante e que eu próprio tenho de continuar a desenvolver é o Python, sobretudo para quem trabalha com tratamento de dados ou como data engineer.
Por fim, é necessário dominar uma ferramenta de visualização de dados. No meu caso, trabalho com Power BI, mas existem outras no mercado, como Qlik Sense ou Tableau.
Como vês a evolução da função de BI com o avanço da Inteligência Artificial e da automatização?
Vejo que, cada vez mais, o analista de BI vai ter de aprofundar conhecimentos em tratamento de dados, até para conseguir uma progressão de carreira mais sólida. No início, o analista fazia praticamente tudo; depois, as funções começaram a especializar-se, mas agora, com a entrada da inteligência artificial, será novamente necessário saber um pouco de tudo.
Muitas tarefas vão deixar de ser feitas manualmente e, por isso, será cada vez mais importante haver quem faça a gestão desses processos. Nesse contexto, dominar o tratamento de dados torna-se essencial.
Li recentemente que hoje já se fala em diferentes perfis, como analista de ETL, data engineer e BI engineer, um profissional que combina competências de engenharia com conhecimento de negócio, dashboards e visualização de dados.
Há alguma ferramenta que descobriste recentemente e te facilitou muito o trabalho?
No meu trabalho atual ainda não utilizo essa tecnologia, mas, pelo que tenho observado, muitas empresas já estão a usar o Microsoft Fabric. Acredito que muitas organizações irão migrar para essa ferramenta nos próximos anos.
Que mensagem gostarias de deixar a quem lê esta entrevista e está a considerar uma carreira em BI?
Estudar bem SQL, que continua a ser a base. O Spark também é importante para o tratamento de dados. É igualmente relevante começar a acompanhar as novas ferramentas, uma vez que a tendência aponta para a migração generalizada para a cloud. Nesse contexto, conhecimentos em Microsoft Fabric, Azure, AWS ou Google Cloud são uma mais-valia.
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